Blog do HP Hairton Ponciano

O dia em que os carros pararam

As histórias a seguir são todas obras de ficção, envolvendo carros sem combustível, mas não estamos muito longe de situações assim

carro
Motoristas voltam na contramão em plena Rodovia Fernão Dias, para fugir de bloqueio: caos instaurado. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Naquela manhã, Carla fez como sempre: despediu-se do marido com um rápido beijo e saiu para o trabalho. O escritório não era longe, e por isso ela julgou que poderia abastecer o carro no fim da tarde, na volta. As duas barrinhas no marcador eram suficientes. E não seria a primeira vez que agia assim.

O trânsito naquela manhã, porém, estava péssimo. No sexto dia de protesto dos caminhoneiros, alguns manifestantes decidiram fechar exatamente o caminho usual de Carla, forçando-a a fazer um desvio maior. Tudo ia bem até que encontrou um segundo bloqueio.

Mais um desvio, e o trajeto normalmente feito em meia hora já havia passado de uma hora, quando o carro deu um pequeno engasgo.

Carla pensou que deveria ter seguido o conselho do marido e mandado o carro para revisão, e decidiu que
providenciaria isso assim que possível. Enquanto pensava nisso, o carro deu uma engasgada maior, mais profunda, e parou no meio da rua. Carla tentou dar na chave várias vezes, e nada. O trânsito aumentou atrás dela, e todos buzinaram muito. Depois, xingaram, ao passar por ela.

Carro novo, tanque vazio

No outro lado da cidade, Márcio estava realizando um sonho de criança. Após uma promoção no emprego, finalmente ele conseguira comprar seu primeiro carro 0 km. Embora tivesse pago R$ 58 mil no carro, o vendedor o aconselhou a parar no primeiro posto, assim que saísse da concessionária, porque a loja havia abastecido o tanque com somente um litro de etanol.

Ele estranhou a pão-durice da loja, que tinha showroom de mármore cheio de carrões, e que lhe negava um tanque de combustível. Mas sabia que infelizmente essa era a praxe do mercado. Fazer o quê?

Saiu, encontrou o primeiro posto fechado, e o carro com tinta reluzente e interior cheirando a couro parou na rua, antes de chegar ao segundo posto.

Fundo do poço

João foi um dos últimos da fila a conseguir abastecer, antes que os frentistas avisassem que todas as bombas estavam vazias. Saiu feliz, apesar do tempo de espera – mais de 40 minutos – e do preço abusivo. Ele havia abastecido no mesmo posto havia dez dias por 30% a menos do que pagara agora.

Mas não chegou a andar nem dois quilômetros antes que o carro começasse a falhar. Como estava passando perto de uma oficina, decidiu parar, para ver o que estava acontecendo. Depois de uma rápida análise, o mecânico constatou que o combustível, que estava no fim do reservatório do posto, havia chegado ao carro com tantas impurezas que os filtros da bomba e do veículo não conseguiram barrar.

Fura-fila

A fila do posto era grande e demorada, mas todos aguardavam. Afinal, fazer o quê? O etanol já tinha acabado. Gasolina, só a aditivada, e a preço exorbitante. Paciência, era um dos únicos postos da região que ainda não tinham fechado.

Depois de mais de uma hora de espera, o motorista de uma picape entrou na frente do carro de Wilson assim que o veículo da frente andou um pouco. Wilson buzinou, o motorista da picape fez sinal para ele passar por cima.

Quando desceu para argumentar que todos estavam ali havia muito tempo, o motorista desceu do carro e o empurrou. Na queda, bateu com a cabeça no chão e, antes do desmaio, ainda teve tempo de ver a picape dando ré em cima do capô de seu carro, e sair cantando pneus.


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