Há 40 anos, Fiat começava a fabricar o Alfa Romeo brasileiro

Sedã de luxo baseado no Alfetta italiano, Alfa Romeo 2300 nasceu sob a batuta da FNM

ALFA ROMEO 2300 Sedãs de 74, 77, 83 e 86 são a síntese de todas as fases do modelo (Fotos: Felipe Rau/Estadão)

Há 40 anos, começava a ser fabricado pela Fiat em Betim (MG) um dos maiores símbolos de exclusividade do mercado brasileiro: o Alfa Romeo 2300. Projetado especificamente para o País, o sedã nasceu sob a batuta da antiga Fábrica Nacional de Motores (conhecida como “Fenemê”) em 1974 e passou às mãos da Fiat em 1977.

O modelo foi a maneira encontrada pela extinta empresa sediada em Duque de Caxias (RJ) para disputar um naco do mercado de carros de luxo no Brasil, na primeira metade dos anos 70. As principais opções do segmento eram representadas pela linha Ford Galaxie, com o LTD e o Landau, Chevrolet Opala e Dodge Dart.

A FNM vendia o sedã FNM 2000 JK. Porém, seu projeto, derivado do Alfa Romeo 2000 italiano de 1957, já não tinha fôlego para continuar no páreo.

A solução foi adaptar mais um produto da marca de Milão, que havia se tornado sua controladora em 1968. Dessa vez, a inspiração veio da configuração três-volumes do Alfetta, de 1972. O resultado foi o primeiro modelo produzido com a marca Alfa Romeo fora da Itália.

Bastante parecido com o “irmão” europeu, o que inclui o conjunto ótico com quatro faróis redondos, o 2300 estreou em março de 1974. Trazia itens inéditos para a época, como freios a disco nas quatro rodas e bancos com encosto de cabeça regulável.

Havia apliques que imitavam madeira no painel e no aro do volante, que tinha três raios e aparência esportiva.

Sob o capô, um motor de 2,3 litros com duplo comando gerava potência de 140 cv e torque de 21 mkgf, permitindo ao sedã acelerar de 0 a 100 km/h em 11,7 segundos e atingir bons 170 km/h de velocidade máxima. No generoso tanque de combustível, cabiam 100 litros.

 

IMPULSO
As primeiras melhorias vieram em 1976, na esteira da proibição das importações de veículos. Como o 2300 passou a mirar antigos consumidores de marcas de luxo estrangeiras, como BMW e Mercedes-Benz, a FNM aproveitou para aperfeiçoar o sedã.

O modelo recebeu painel reformulado com fundo azul e iluminação verde, portas e bancos com acabamento de veludo, volante de plástico com regulagem de altura, lanternas traseiras maiores e as marcantes maçanetas embutidas nas portas. Retrabalhado, o motor ganhou 1 cv de potência e a capacidade de rodar com gasolina comum (até então, só utilizava combustível de alta octanagem).

No ano seguinte, surgiu a versão de luxo TI (sigla para “turismo internacional”). A cabine tinha painel revestido de mogno e, atrás, cintos de segurança de três pontos, bancos com apoios de cabeça e saídas extras de ventilação. Alimentado por dois carburadores Solex de corpo duplo, o motor passava a entregar 149 cv e levava o sedã a 175 km/h.

 

ACERTOS
Quando a Fiat assumiu a FNM no Brasil, a produção do 2300 migrou de Xerém (RJ) para Betim (MG). Problemas antigos do modelo, como corrosão da lateria e falhas de vedação, foram solucionados.

“Na primeira fase, o sedã apresentava ferrugem em pontos críticos, o que lhe trouxe má fama, justo quando mais precisava se sair bem em vendas”, comenta o colecionador Marcelo Paolillo. “A Fiat deu uma enfeitada no carro, trouxe um pouco mais de conforto e requinte. Os exemplares mais antigos eram muito duros e tinham mau isolamento acústico.”

Em 1981, a linha ganhou direção hidráulica progressiva e opção movida a etanol, com carburação simples, de 145 cv – que passou a ser a nova TI, enquanto a configuração a gasolina com quatro carburadores foi rebatizada de TI4.

 

 

A partir de 1983, a TI4 tornou-se a única disponível para o modelo, que já não conseguia fazer frente a outros sedãs mais modernos – e acessíveis – à venda no País. Um Alfa TI4 chegou a custar quase o preço de dois Volkswagen Santana.

A linha 1985 marcou a etapa derradeira do modelo, com atualizações na grade dianteira e lanternas traseiras, além de para-choques envolventes. Mesmo assim, as vendas do sedã continuavam caindo.

Diante disso, no fim de 1986 a Fiat encerrou a produção do 2300, que se despediu com um saldo de 29.564 unidades fabricadas. A marca Alfa Romeo só voltaria à paisagem brasileira na década seguinte, com os sedãs 164 importados da Itália.

 

CONFRARIA DE FÃS REÚNE 60 PROPRIETÁRIOS

Quando o agente de viagens Marcelo Paolillo sentou no banco do motorista de um Alfa Romeo 2300 que estava à venda pela internet, em 2006, uma pequena mágica se operou.

“Girei a chave de ignição e o barulho do motor abriu uma caixa que estava fechada dentro de mim. Vieram lembranças da minha infância, eu me vi guiando o carro em um estacionamento, ainda moleque. Essa caixa nunca mais se fechou”, ele conta.

Paolillo comprou o sedã, que daria início a uma numerosa coleção. Não foi difícil encontrar outros proprietários com histórias de vida semelhantes, sempre marcadas pela presença dos Alfa Romeo nacionais.

 

A partir da esquerda, Paolillo, Pereira, Diz e Ferreira, que têm em comum a paixão pelo Alfa
A partir da esquerda, Paolillo, Pereira, Diz e Ferreira, que têm em comum a paixão pelo Alfa

 

 

Primeiro nasceu a amizade com o empresário Júnior Diz. Depois, surgiram o advogado Emerson Ferreira e o diretor comercial Alexandre Pereira, também com a mesma paixão. A confraria que os quatro fundaram em 2013 conta atualmente com mais de 60 pessoas reunidas em um grupo virtual e 120 sedãs espalhados pelo País.

“Criamos a confraria para trocar ideias sobre manutenção. Os donos de 2300 encontram muitas dificuldades. Poucos mecânicos entendem de Alfa Romeo e a regulagem dos carburadores exige conhecimento específico”, explica Diz.

A ajuda não é apenas teórica. Membros de outras partes do Brasil enviam seus carros para São Paulo aos cuidados da confraria, que faz a ponte com oficinas especializadas no modelo.

 

CATÁLOGO

Com o tempo, o grupo tornou-se ponto de convergência de dados sobre a frota remanescente do Alfa 2300 – estimada entre 200 e 300 unidades. “Quando um exemplar muda de mãos, o próprio vendedor indica a confraria ao novo proprietário”, diz Paolillo.

E o número de carros catalogados continua a crescer. “Vira e mexe, surge algum sedã em um casarão antigo, um galpão industrial, uma empresa que faliu”, conta o agente de viagens. “Alguém nos envia a foto e vamos atrás do dono. É um trabalho de detetive mesmo.”

A partir daí, os confrades verificam se o proprietário tem interesse em manter o carro. Se a resposta for positiva, o grupo o ajuda a obter peças. Caso contrário, algum membro do grupo acaba comprando o veículo. Afinal, o interesse por mais unidades nunca acaba.

“Um membro do Mato Grosso do Sul estava com dificuldades financeiras e fizemos uma rifa com o carro dele. O ganhador resolveu doar o sedã de volta para o proprietário. O dono então pôs o carro à venda e, menos de duas horas depois, um confrade do Piauí o comprou”, conta Paolillo.

 

RESGATE

O sedã bordô de 1974 que aparece nesta página é um bom exemplo de até onde esses apaixonados “alfistas” podem chegar. O modelo passou muitos anos abandonado em uma rua da zona sul da capital paulista, até que alguém resolveu rebocá-lo e colocá-lo à venda.

“Um amigo me deu a dica desse carro, que estava sem documentação. Comprei por um preço baixo e assumi o desafio de regularizá-lo”, diz Ferreira.

Depois de localizar o antigo proprietário em Petrópolis (RJ) e colocar a papelada em ordem, o advogado saiu em busca de um câmbio novo para o sedã. Foi assim que conheceu Paolillo – e descobriu que o agente de viagens havia cobiçado o mesmo Alfa Romeo por anos.

“Eu e minha esposa fomos muitas vezes até o lugar onde o sedã estava, para dar uma ‘namoradinha’ nele”, conta Paolillo. “Um dia, eu expliquei ao Emerson como aquele carro era importante para nós, e ele concordou em vendê-lo para mim.”


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