Primeira Classe Rafaela Borges

Uma central que salva ‘vidas’

Central multimídia ajudou a salvar as vendas do Etios no mercado. Em contrapartida, consumidor de carros não parece tão preocupado em salvar a própria vida

Toyota Etios Sedan (Foto: Sergio Castro/Estadão)

 

Há cerca de três anos, minha irmã sofreu um acidente grave. Ela transitava por uma rodovia e chovia bastante. Estava a cerca de 80 km/h quando seu carro aquaplanou, rodou e bateu no guard-rail.

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Felizmente, ela não sofreu ferimentos graves. O carro teve perda total. Quando ela foi comprar um novo, eu recomendei: só compre um carro se tiver ESP (sigla para controle eletrônico de estabilidade). Esse sistema poderia ter evitado o acidente.

O consumidor brasileiro, porém, não parece estar tão preocupado com a presença do ESP nos carros. O item vai passar a ser obrigatório no ano que vem em todos os novos projetos de veículos. A partir de 2020, estará em todos os carros à venda no Brasil.

No entanto, a ausência de ESP no Corolla, um carro que na versão mais vendida se aproxima dos R$ 100 mil, nunca o impediu de vender como água. No ano passado, ele vendeu tanto que ficou em quinto lugar no ranking de emplacamentos. Este ano, felizmente, passou a contar com ESP.

Mas que item faz um consumidor comprar um carro atualmente? Na minha opinião, em qualquer faixa de preço, o que se tornou indispensável é a central multimídia.

E o melhor exemplo disso é outro Toyota, o Etios. Lançado em 2012, o carro foi um fracasso nos primeiros anos, vendendo bem menos que a expectativa de sua montadora – que havia inaugurado uma fábrica, em Sorocaba (SP), só para ele.

Porém, no ano passado, o jogo virou. O Etios, mesmo sem passar por revolução em seu polêmico visual, começou a vender bem. Tanto hatch quanto sedã entraram na lista dos 20 mais vendidos.

E, quando se descontam as vendas diretas, para empresas, vão melhor ainda. Considerando apenas as entregas no varejo (para o consumidor), o hatch aparece entre os dez mais emplacados.

O que mudou? No ano passado, o Etios ganhou uma moderna central multimídia, o que fez toda a diferença. Claro que houve outros fatores, como a chegada do câmbio automático.

Em grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro (que são também os maiores mercados consumidores), o motorista passou a fazer questão desse item. Afinal, ninguém quer ficar horas e horas preso no trânsito tendo de mudar marcha.

Consumo do motor do carro, claro, é importante. Muito. Agilidade também. Esses sempre foram itens procurados pelo cliente brasileiro, e continuam sendo.

Mas fico impressionada com a diferença que a central multimídia passou a fazer. E não à toa: em um mundo totalmente conectada, no qual usamos nossos telefones celulares para absolutamente tudo, não dá mais para não ter esses sistemas.

Neles, dá para escutar músicas provenientes de arquivos digitais (quase nenhum carro novo traz mais tocador de CD), usar o navegador GPS, falar ao telefone e até projetar a interface do telefone celular (nesses dois últimos pontos, a comodidade vem acompanhada da segurança, já que o motorista não precisa mexer no aparelho portátil).

Em alguns carros, a tela da central também projeta imagens da câmera de ré, a melhor amiga das manobras de estacionamento. É comodidade que não acaba mais, e quem não quer ter a vida facilitada?

O problema não é a central multimídia. O problema é a opção do brasileiro. A maioria dos clientes parece não se importar se falta segurança ao automóvel, desde que ele tenha comodidade.

Um indício disso é o lançamento do novo Tracker, reestilizado e com novo motor. As marcas fazem pesquisas com clientes quando vão colocar um carro no mercado.

E é dessas pesquisas que veio a escolha da Chevrolet: para compor um pacote competitivo de preço, todas as versões têm central multimídia e câmbio automático, os itens que representam a comodidade. E nenhuma tem ESP, equipamento disponível para o carro em outros mercados – inclusive nas versões fabricadas no México, de onde vem o Tracker vendido no Brasil.

Erro da GM? Sim e não! Por um lado, eu sempre acho que as marcas têm de incentivar o uso de tecnologias de segurança. Por outro, uma montadora precisa vender carros. E se um cliente faz questão de um item, mas não do outro, por que deixar o veículo mais caro com uma tecnologia que ninguém procura? São duas leituras de uma mesma questão.

O que é necessário, de verdade, é a conscientização do consumidor brasileiro. Ninguém vê o ESP. No geral, esse sistema não tem nenhuma utilidade no dia a dia, e todo mundo acha que está imune a contratempos – situação em que a tecnologia vai agir.

Já a central e o câmbio automático todos vêm. E como eles são úteis no dia a dia, né? Mas eles não salvam vidas – ou, ao menos, essas não são suas funções primordiais. As tecnologias de segurança, sim.

Não está na hora de exigirmos carros mais seguros? Se ninguém se importa, esse parâmetro jamais vai se desenvolver nos veículos do País. A não ser que o governo faça sua parte e obrigue o uso desses sistemas.