Renault Teimoso é ‘bisavô’ do carro popular

Versão depenada do Renault Gordini reluz nas mãos zelosas do advogado Artur Vidal


O advogado Artur Vidal e seu Teimoso, modelo espartano lançado em 1964
“Era uma casa muito engraçada. Não tinha teto, não tinha nada.” Se o poeta Vinícius de Moraes tivesse escrito uma versão automotiva para a canção de 1980, o carro retratado bem poderia se parecer com o Teimoso 1966 do advogado Artur Vidal.

Espécie de bisavô dos “populares” que surgiriam no País em 1990, o sedã, lançado em 1964 pela Willys Overland sob licença, era uma versão “pelada” dos Renault Gordini e Dauphine.

Naquele ano, o governo brasileiro criou um programa cujo objetivo era oferecer facilidade de pagamento para carros mais baratos, como forma de reanimar a economia, que estava em recessão. Surgiram, além do Teimoso, o Simca Profissional, versão espartana do Chambord, e o Volkswagen “Pé de Boi”, Fusca completamente depenado.

Para alcançar a economia de custos necessária, o Teimoso não trazia itens como calotas, cromados, tampa do porta-luvas, espelho retrovisor externo, marcadores do nível de combustível e da temperatura do motor, limpador de para-brisa do lado direito e luzes de seta. Na traseira, uma única lanterna cumpria as funções de luz de freio e posição. Com isso, o carrinho custava quase a metade do preço do “irmão” Gordini.

Mas tamanho despojamento não é considerado como um problema por Vidal. Fã da marca Willys, ele é dono de exemplares do Gordini e do Dauphine, mas diz que o Teimoso tem um valor afetivo especial.

“Quando ingressei no curso de direito da Universidade Federal do Ceará, eu achava esse carro maravilhoso. E nunca deixei de gostar dele”, relembra.

O advogado conhece bem as limitações do sedã “popular”. Mas leva tudo na esportiva. “Os bancos são finos como cadeiras de praia, mas as costas não doem, pois são anatômicos. E, por ser cerca de 100 kg mais leve, ele é mais ágil que os irmãos”, conta. “Como não tem forrações no teto e nas portas, é muito barulhento e quente – você ‘cozinha’ sob o sol.”

Há, ainda, o gostinho especial de exibir um modelo tão raro. Vidal calcula que restam pouco mais de uma dezena de exemplares originais como o dele.

“Com o tempo, muitos proprietários do Teimoso foram instalando itens do Gordini, para deixá-lo menos franciscano, e o desvirtuaram”, afirma o advogado. “Isso tornou ainda mais difícil encontrar um Teimoso preservado. A mecânica é a mesma, mas painel e volante, por exemplo, são diferentes.”

Para ele, membro da comissão que avalia antigos no célebre evento de Águas de Lindoia (SP), esses aspectos são muito importantes. “Sou muito exigente e rigoroso no que diz respeito à originalidade. Todos os meus antigos têm 100 pontos (a nota máxima) no formulário da placa preta”, orgulha-se.

A relíquia de Vidal foi adquirida no Rio de Janeiro em janeiro de 2015 e restaurada em menos de seis meses. Fica guardada sob uma capa, com um dos polos da bateria desligado, e a cada 15 dias passa por revisão mecânica e roda pela capital paulista ou em viagens curtas. Em um desses passeios, o Teimoso até fez o dia de alguém mais feliz.

“Uma senhora me abordou e pediu para se sentar no banco traseiro do carro. Depois me agradeceu e disse que eu havia curado sua depressão, pois ela tinha revivido a infância a bordo do Teimoso”, conta Vidal.

Origem. A origem do nome Teimoso é curiosa. Projeto da Renault francesa, o Gordini tinha fama de ser frágil e pouco adaptado às condições das vias brasileiras. Isso lhe rendeu o apelido jocoso de Leite Glória, pois, segundo os seus detratores, o carro “desmancha sem bater” – esse era o slogan da propaganda do laticínio.

Para provar o contrário e afastar a má fama do sedã, a Willys submeteu um Gordini a uma prova de resistência no Autódromo de Interlagos, na capital paulista, com vários pilotos se revezando ao volante por 22 dias, em mais de 50 mil km rodados.

Lá pelas tantas, o ás Bird Clemente capotou o carro – que foi conduzido ao box, consertado de forma precária e, para surpresa geral, retomou a prova em seguida. Daí veio o apelido Teimoso, que batizaria a versão popular.

“Muita gente vê meu carro e diz ‘olha o Gordini’. Pensam que Teimoso foi um apelido que eu dei para o meu carro”, diz Vidal. “Poucos conheceram ou se lembram dessa versão.”


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