Carro do leitor

Impecável, Chevrolet Amazona 1962 é o xodó da família

O analista de sistemas aposentado João Valli Jr. adquiriu e restaurou um exemplar de 1962 da Chevrolet Amazona, modelo que marcou sua infância

Thiago Lasco

14 de mar, 2019 · 8 minutos de leitura.

Chevrolet Amazona
João Valli Jr. leva toda a família em sua Chevrolet Amazona 1962
Crédito:Crédito: Tiago Queiroz/Estadão

Se a principal vocação de uma van é ser um carro de família, a Chevrolet Amazona 1962 do analista de sistemas aposentado João Valli Jr. tem cumprido essa missão com maestria. É a bordo dela que ele, a esposa Rosemary e as filhas Vitória, de 11 anos, e Mariana, de 1 ano e 2 meses, marcam presença em eventos de antigos.

VÍDEO DA SEMANA: Teste e todos os detalhes do novo Renegade

?Ela desperta muita curiosidade. As pessoas ainda encontram por aí a picape 3100 Brasil, da qual a Amazona é derivada, mas não a van?, ele comenta.

A linha da Chevrolet marcou a infância do aposentado. ?Um vizinho meu tinha uma picape Brasil e colocava a molecada na caçamba para dar uma volta no quarteirão?, ele conta. ?As linhas da Amazona sempre me atraíram, mas só na adolescência eu me apaixonei por ela?.

+ Nostálgico, Veraneio 1976 ainda mete medo

+ Caminhão Chevrolet Brasil transformado esbanja personalidade

+ Chevrolet 3100: um caso de amor há 25 anos

Há cerca de 15 anos, o flerte com a van começou a ficar sério. Valli sempre via um exemplar em um estacionamento pelo qual passava a caminho de Curitiba, onde tinha clientes, e um dia teve a certeza de que queria comprar uma Amazona. O problema era encontrar uma Chevrolet sobrevivente.

A busca só terminaria no final de 2008, com um anúncio na internet. Como a van à venda preservava o motor original e vários emblemas na carroceria, Valli se interessou e fechou negócio.

Restauração da Amazona foi trabalho digno de artista

?A pintura tinha bolhas e precisava ser refeita. Eu e minha esposa cogitamos fazer apenas a repintura. Mas concluímos que o carro era tão raro que merecia uma renovação completa?, explica.

Durante o trabalho de restauração, que começou em 2010 e levou cinco anos, a raspagem da pintura revelou extensas porções de massa na lataria. ?Isso explicava as bolhas. O carro não estava tão íntegro como havíamos imaginado?, ele conclui.

Continua depois do anúncio

Um dos detalhes mais complicados do processo foi a reconstrução do emblemático ?bigode? que marca a dianteira do modelo. ?Foi um trabalho de dobradura de chapa que exigiu muita perícia?, comenta o proprietário. ?E o assoalho de madeira na parte traseira da cabine foi uma obra de artista?, completa, sem esconder o orgulho pelo carro pronto.

Escola, estrada e igreja: a Amazona topa todas

Passados quatro anos do restauro, a Amazona ainda está tinindo. Os bancos, ainda originais, receberam novo revestimento, em tecido bicolor do tipo ?saia e blusa?. Para garantir o bom funcionamento do conjunto mecânico ? um motor 4.3 de seis cilindros e 142 cv e um câmbio de três marchas ? Valli roda com a Amazona pelo menos duas vezes por semana.

Um dos trajetos habituais são os 25 km que separam sua casa da escola onde a filha Vitória estuda. Mas a van já levou até noivas para a igreja. ?Muitas amigas pedem outro antigo que tenho, um Bel Air, mas algumas preferiram a Amazona, que foge do lugar-comum?, diz o aposentado.

Viagens em família também são frequentes, e a Chevrolet mantém velocidade de cruzeiro de 100 km/h sem problemas. Para aumentar a segurança de todos, Valli instalou freios a disco nas rodas dianteiras. ?O antigo sistema, a tambor nas quatro rodas, não dava conta de deter o carro, que vazio pesa 1.650 kg. Antes era preciso se antecipar bastante nas frenagens, senão ele não parava a tempo. Hoje me sinto mais tranquilo?, ele conta.

Valli não cansa de admirar a Amazona e, por isso, propostas para vendê-la estão fora de cogitação. Para driblar os insistentes, ele tem uma tática: diz que é apenas o usuário da van e que a propriedade do veículo é das filhas. ?Experimente falar com a Vitória para ver o que acontece! Amigos meus vêm brincar com ela, dizendo que compraram a Amazona de mim e pedindo que ela retire os pertences do carro. Ela fica brava?, diverte-se o aposentado.

Amazona era a filha ?trabalhadora? da família

A Amazona é derivada da picape Chevrolet 3100 Brasil. Esse modelo, por sua vez, é uma versão da 3100 norte-americana, carro-chefe da linha de comerciais leves que a General Motors lançou após o fim da Segunda Guerra Mundial.

A 3100 foi apelidada carinhosamente de ?Boca de Sapo? por causa do desenho da dianteira. Após
ser nacionalizada, em 1959, a picape ganhou algumas variantes. A primeira delas foi a van Amazona, que surgiu em 1960. Era definida como uma ?camionete de uso misto?, na qual passageiros e bagagem ficavam no mesmo compartimento (e não separados, como na picape).

No Salão do Automóvel de 1961, a picape 3100 gerou outros dois frutos. Um deles era a 3114 (conhecida como Alvorada), uma picape cabine dupla para seis pessoas. O outro era o Corisco (oficialmente, Chevrolet 3105), um furgão fechado para carga.

A Amazona foi muito empregada como veículo de trabalho: era a perua escolar, o carro do leiteiro. Com isso, grande parte das unidades se perdeu após anos de uso intensivo. ?A minha teve mais sorte porque, de acordo com o proprietário anterior, ela foi usada pela Marinha para transportar oficiais. Por isso, não foi tão judiada?, diz Valli.