Blog do Boris Boris Feldman

30/03/2021 - 7 minutos de leitura.

Mercedes nasceu há 120 anos, numa derrapada de Herr Daimler

Dois alemães geniais e um judeu apaixonado por automóveis acabaram criando uma das mais famosas marcas do mundo

Mercédès, poucos sabem, era filha de Emil Jellinek (1853-1918), um judeu alemão nascido em Leipzig (Alemanha), filho de um rabino que se mudou com a família para Viena (Áustria).

Emil tornou-se diplomata, mas também um empresário de muitos negócios. Mudou-se para Nice (Sul da França), assumiu o consulado austríaco, mas estabeleceu lá uma loja que vendia carros franceses (Peugeot) e alemães (Daimler).

Emil Jellinek

A cidade francesa, no final do século 19, era a capital mundial do automobilismo e sediava várias competições na Riviera Francesa, entre provas de velocidade, arrancadas e subida de montanha.

A “Era Moderna” do automóvel

Apaixonado por automóveis, Emil participava de todas as provas, muitas vencidas pelos Daimler que ele e seus clientes pilotavam. No início de 1900, Jellinek encomendou aos engenheiros Gottlieb Daimler e Wilhelm Maybach, projetista de sua fábrica, um novo modelo a partir de orientações do próprio Jellinek, o 35 HP.

Os três sepultavam de vez a “horseless carriage” (carroça sem cavalo) ao inovar com um carro moderno, alterando drasticamente os conceitos da época, com chassis mais longo, motor próximo ao piso, radiador integrado, baixo centro de gravidade e ignição elétrica (por centelha) Bosch (até então, era com tubo incandescente por gás).

O primeiro Mercedes fez sua estreia em Nice, em março de 1901

Sete unidades do “35 HP” foram entregues a Jellinek no final de 1900 e participaram da “Nice Week” de 1901, um evento anual de cinco dias dedicado às competições. Exatamente, portanto, há 120 anos, entre 25 a 29 de março, foi marcada a estreia do novo carro, vitorioso em todas elas.

Corridas? Nem pensar!

Entretanto, apesar de fabricado pela Daimler, o evento de Nice estreava também uma outra marca, pois Herr Daimler não queria ver a sua associada a corridas de automóveis, já que no ano anterior foram registrados dois acidentes, um deles fatal. Ele morreu em 1900, mas a empresa manteve sua decisão de não participar de competições, para não ver “prejudicada sua imagem”.

Mercedes Jellinek

Emil Jellinek batizou então, com o nome de sua filha de dois anos, os carros mais velozes já produzidos pela Daimler. A marca se tornou famosa ao ganhar todas as principais corridas na Europa.

A “Era Mercedes”

A imprensa destacou na época que os automóveis estavam entrando numa nova fase, a “Era Mercedes”. A marca ganhou tamanho prestígio e notoriedade que ninguém encomendava mais os Daimler: todos queriam os Mercedes…

O primeiro carro Mercedes 

A direção da Daimler teve que engolir em seco e substituir a marca de seus automóveis pelo nome da filha de Jellinek. E, no ano seguinte (1902), estabelecer um acordo com o pai para registrar a marca Mercedes como propriedade da DMG (Daimler Motoren Gesellschaft). Em 1909, a empresa patenteou o logotipo com a estrela de três pontas. Em 1926, uniram-se as empresas de Gottlieb Daimler e Carl Benz (que nunca se conheceram) numa única, chamada Daimler-Benz. E os carros, Mercedes-Benz.

A evolução do 35 HP foi o segundo Mercedes, com 40 hp de potência

A mentira do primeiro carro

Em 1886, 15 anos antes do evento em Nice, Carl Benz patenteava seu triciclo motorizado, o Benz Patent Motorwagen. Que a Daimler anuncia enfaticamente como o primeiro automóvel do mundo. Mas não foi.

Dois anos antes, em 1884, o francês Edouard Delamare-Debouteville já tinha construído um automóvel com quatro rodas, motor a combustão, freios, direção e bancos.

Réplica do automóvel de Delamare-Debouteville, de acordo com seus próprios desenhos

Porém, cerca de 14 anos antes (1870), outro judeu alemão, Siegfried Marcus, engenheiro que residia em Viena (Áustria), construiu uma “coisa” de quatro rodas que se movimentava com um motor a combustão interna. Foi considerado o real inventor do automóvel.

Entretanto, ele cometeu dois “erros”:

  1. Ser judeu. Então, quando os alemães anexaram a Austria em 1938, apagaram todo o legado de Marcus naquele país. Para completar, em maio de 1940 o regime nazista foi solicitado – pela Daimler-Benz – a ordenar duas editoras alemãs a eliminar Marcus de suas enciclopédias como inventor do automóvel e substituí-lo pelos engenheiros alemães Carl Benz e Gottlieb Daimler;
  2. Assim como o francês Delamare-Debouteville, Marcus também não patenteou seu “automóvel”.

Além de não terem patenteado seus carros, produziram apenas uma unidade de cada e não deixaram, portanto, uma fábrica para continuar sua obra e registrar seu legado.

Assim, a Daimler se sentiu à vontade para anunciar que a história do automóvel se inicia com o Benz Patent Motorwagen. Sem ninguém para protestar…

Daimler anuncia o triciclo de Benz (1886) como o primeiro do mundo; mas não é
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