Blog do Boris Boris Feldman

Amarelo em maio. E depois?

Brasil anestesiado: imprensa destaca 200 mortos num acidente aéreo, mas deixa passar batido mesmo número de vítimas no trânsito cada dois dias

Acidentes matam 100 pessoas por dia no Brasil Acidentes matam 100 pessoas por dia no Brasil

Louvável a iniciativa do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), de estabelecer um mês focado na segurança do trânsito (o Maio Amarelo), em combater a tragédia que ceifa dezenas de milhares de vidas anualmente em ruas e rodovias. É necessário que o brasileiro reflita sobre essa chacina rodoviária. Importante lembrar que mais de 90% destes acidentes são provocados pelo motorista.

Desatento, alcoolizado, despreparado, imprudente, sonolento e desrespeitoso com a legislação de trânsito. Soma-se a isso o criminoso descaso dos governantes à manutenção rodoviária e integridade dos veículos para se completar o quadro caótico que leva o país ao pódio do ranking mundial de acidentes do trânsito: segundo lugar, atrás da Índia.

O Brasil está anestesiado em relação às vítimas de trânsito. A imprensa dá primeira página quando a queda de um avião comercial provoca 200 mortes. Mas passa batido o mesmo número de mortos nos acidentes em ruas e estradas cada dois dias.

O Maio Amarelo está em sua quinta edição e a cor foi escolhida pois representa a atenção. O mês foi escolhido pois foi no dia 11 deste mês, em 2011, que a ONU decretou a década de ações para a segurança no trânsito (2011-2020). A meta: redução de 50% dos acidentes de trânsito no mundo.

Entretanto, é preciso colorir o resto do calendário pois o Brasil está longe de cumprir essa meta. Por enquanto, a família assiste à campanha de segurança no trânsito na televisão, mas o pai deixa o sofá, assume o volante e começa a série de barbaridades com seu filho no carro. Ultrapassa pela faixa da direita (ou pelo acostamento), não respeita faixa de pedestre nem o sinal vermelho na esquina.

Encosta exatamente defronte à escola onde vai deixar ou buscar o filho nem que tenha de ser em fila dupla ou tripla, prejudicando todo o trânsito. Fecha o cruzamento, converte à esquerda onde é proibido. Aceita o pedido de propina do policial para não registrar sua infração. Mas fica “indignado” com os políticos corruptos.

Ao invés de reforçar – com seu exemplo – a campanha educativa, joga no time contrário. E com peso maior, contribuindo para se criar uma nova geração de motoristas imprudentes e desatentos à legislação. De “espertos” que procuram levar vantagem ao volante e em outras situações da vida.

Não me esqueço (já contei aqui) a história do brasileiro que estagiava numa fábrica sueca e pegava carona com um colega de trabalho. Que chegava bem cedo, mas estacionava o carro longe do portão de entrada da empresa, apesar do pátio quase vazio. O brasileiro questionou o comportamento e o sueco explicou que fazia assim para deixar livres as vagas próximas ao portão. Assim, os colegas que chegassem em cima da hora não teriam que atravessar correndo todo o pátio. É a “esperteza” sueca…

Para completar o quadro, mesmo que o motorista seja correto, respeitador das leis e mantenha seu carro adequadamente, corre o risco de se envolver involuntariamente num acidente rodoviário provocado pela falta de condições da estrada ou de outro veículo. Por alguma cratera asfáltica resultado da irresponsabilidade dos órgãos públicos encarregados da manutenção da rodovia. Ou por um automóvel com pneus carecas e sem freios porque – passados 20 anos da vigência do novo código de trânsito – o governo federal foi incapaz de implementar a inspeção técnica veicular estabelecida por ele e fecha os olhos para os calhambeques nas ruas e estradas.

O brasileiro honesto e ético corre o risco de ser vítima de governantes e empresários que não se preocupam com o bem público nem com sua conduta mas apenas com o “sucesso” político e financeiro. Em abocanhar seu quinhão. E, de quinhão em quinhão, corrupção em corrupção, descaso em descaso, está estabelecida essa grande tragédia nacional rodoviária.

“Maio Amarelo” é importante, mas é pouco.


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