Primeira Classe Rafaela Borges

Quem ‘matou’ o Golf no Brasil?

Se o brasileiro ama tanto o Golf, por que a oitava geração não vem? De quem é a culpa?

Volkswagen Golf
Volkswagen Golf nacional Crédito: Nilton Fukuda/Estadão

Um dos carros mais cultuados do mundo, o Golf praticamente “morreu” este ano no mercado brasileiro. A última versão nacional, GTI, está prestes a deixar de ser produzida. Em breve, virá uma opção importada, a híbrida GTE.

Ela ainda manterá a carroceria da sétima geração, o que deve limitar seu tempo por aqui. Isso porque nesta semana a Volkswagen revelou a aguardada oitava geração do modelo, também conhecida como MK8.

No meu perfil do Instagram, e também no perfil do Jornal do Carro, houve vários comentários lamentando a baixíssima possibilidade de o Golf VIII vir ao Brasil. Tão baixa que eu diria que é praticamente inexistente.

Por quê? A principal razão é a situação atual do segmento de hatches médios. Ele não mais “respira por aparelhos”. Essa expressão ficou já no passado.

 

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Agora, ele já tem a morte anunciada. E não foi decretada apenas por uma razão. Entre carros nacionais e argentinos, ainda existe um no Brasil, o Chevrolet Cruze Sport6 – que, aliás, acaba de ser renovado.

Mas se o brasileiro ama tanto o Golf, por que ele não vem? A culpa é da Volkswagen? Ou é do próprio consumidor.

Golf é amado, mas foi rejeitado

Em minha opinião, é claro que a fabricante sempre vai ter sua parcela de culpa. Mas se o Golf, e outros hatches médios, foram embora, o principal culpado é o consumidor brasileiro.

Foi o cliente do País que escolheu abrir mão dos hatches médios. E a razão já é notícia velha: os SUVs compactos.

Só que essa análise é um pouco mais profunda. Ela esbarra na pergunta: por que os SUVs compactos?

É claro que, antes, SUVs eram modelos caros. Com a chegada de diversos carros compactos ao segmento, a partir de 2015, passaram a estar ao alcance de mais pessoas. O sonho de consumo virou realidade.

Os SUVs compactos eram o novo. Os hatches médios, velhas figurinhas.

 

Golf GTE
O híbrido Golf GTE está chegando (Fotos: Volkswagen/Divulgação)

 

No entanto, o fator racionalidade também conta nessa equação. Os SUVs são carros que oferecem versatilidade. A maioria tem porta-malas grande e um espaço interno mais amplo, além de maior facilidade de acesso ao interior.

A posição alta de dirigir também agrada à maioria. Quem gosta de guiar carro grudadinho no chão é entusiasta automotivo tradicional, e esse público é nicho.

Há até muita gente que diz que gosta, ao achar que isso garante um “status” de entusiasta, de consumidor que entende de carro. Mas, na realidade, não gosta.

E os hatches médios são baixos, têm porta-malas menores. Enfim, são menos versáteis, apesar da dirigibilidade superior. A chegada dos SUVs compactos deixou claro que o hatch médio é uma compra mais emocional.

 

Por que os hatches médios vendiam?

Havia poucas alternativas antes de 2015 no mercado brasileiro. O hatch era a opção mais barata ao sedã médio, um caminho entre o carro popular e esse tipo de três-volumes.

Segmentos de ocasião surgiam, como o de monovolumes. Mas acabaram sendo “modismo”. Passaram rápido, e desapareceram de vez com a chegada dos SUVs compactos.

Agora, o hatch médio não está mais no meio do caminho. Até porque o desejo deixou de ser o sedã médio e passou a ser o SUV.

E um novo meio do caminho surgiu: o hatch compacto premium. São modelos compactos como os populares, só que mais bem acabados, tecnológicos e bons de acelerar.

Os hatches compactos premium passaram a garantir a seu comprador um status e uma comodidade que os populares não dão. E os hatches médios, mais caros, passaram a fazer ainda menos sentido na compra racional.

 

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Preços

Por que você deixou de comprar o Golf? Você vai dizer que é porque ele é muito caro, e ele realmente é – ou era, enquanto ainda estava no mercado.

Mas Golf de R$ 120 mil, e Cruze Sport6 com preço de versão sedã, é um conceito que surgiu depois dos SUVs, e dos hatches compactos premium. Depois que o consumidor já tinha perdido o interesse pelos hatches médios.

Às montadoras, restou reposicionar os hatches médios como o Golf. Eles ganharam mais itens, mais tecnologia, para cumprirem um papel de carros de nicho, de entusiastas. De quem compra com a emoção, não com a razão. E esse público no Brasil é muito restrito.

Perspectivas

O Golf já nos abandonou em uma ocasião anterior. Não teve quinta nem sexta gerações no Brasil. Mas voltou, na sétima.

Porém, naquela primeira ocasião, o Golf tinha ido embora por causa de uma crise na indústria automobilística. Ficou caro para o Brasil.

Voltou em um contexto de otimismo tão forte que até as montadoras de luxo passaram a produzir carros por aqui. Mas esse otimismo não se concretizou, e o mercado não cumpriu a profecia de crescimento.

Então, agora é diferente. Não há euforia no setor de carros, mas o pior já passou. O mercado voltou a crescer levemente. 

 

Golf MK8
Golf de oitava geração

 

Porém, desta vez, a falta de interesse é no produto. Será que esse quadro pode mudar, e os hatches médios voltarem a ter representatividade?

Eu acho que, desta vez, é um caminho sem volta. E, se assim for, o Golf até pode voltar um dia, na oitava ou em uma próxima geração. Mas  importado e, ao menos por enquanto, antes da concretização do acordo Mercosul-União Europeia, ainda mais caro. Não faz sentido produzir carro de nicho no Brasil.

Pode voltar para ser de poucos. Aqueles poucos que se mantiveram fiéis a ele até o fim. Talvez, até a versão GTE, que vem aí, já chegue para cumprir esse papel.

Quem matou o Golf e os hatches médios?

As montadoras ajudaram a matar os hatches médios ao oferecerem alternativas, mais segmentos. Mas montadoras são empresas, que visam vender. E têm de entregar o que o cliente quer, alternativas que eles possam, ou queiram comprar.

Nós abraçamos essa alternativa, e deixamos o Golf e os outros hatches médios de lado. Como eles sobreviveriam?

 

 

 

 

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