Nos Estados Unidos, quem compra um Mustang compra um Mustang, não um Ford. O “muscle car” poderia ser da Chevrolet, da Chrysler… ainda assim, seria um Mustang.
(No Instagram: @blogprimeiraclasse)
O carro americano é um dos casos – raros, mas notáveis – em que um veículo se torna maior que sua fabricante. O Mustang é maior que a Ford. E, aqui no Brasil, estamos começando a ver um fenômeno semelhante, com a Toro.
Ninguém compra uma Toro porque quer um modelo da Fiat, ou porque é fã da marca italiana. As pessoas compram a Toro porque desejam especificamente esse modelo. Ele poderia ser da Ford, da Hyundai, da Renault… E, em moldes idênticos, faria o mesmo sucesso.
Em julho, veio o auge da glória da picape. Com preço inicial de R$ 88.890, a Toro foi o carro mais vendido da Fiat. Nada de Mobi, nada de Uno, nada de Strada, nada de Argo (veja os números abaixo).
É a Toro, um veículo caro para os padrões brasileiros, que lidera hoje as vendas da marca que é referência no segmento de carros populares.
Desde os primórdios, a Fiat é uma montadora popular, e suas poucas experiências em segmentos de maior valor agregado não foram bem sucedidas.
Como um carro de quase R$ 90 mil conseguiu ser o modelo mais vendido de uma marca de modelos populares? Isso ocorreu por causa do título dessa reportagem: a Toro já é maior que a Fiat.
ENTENDA A FÓRMULA DO SUCESSO
Obviamente, o mérito é da marca. Aliás, a Fiat tem “sacadas” de mercado excelentes no segmento de picapes.
A marca percebeu que o consumidor de picapes médias estava assumindo uma postura mais urbana.
Em outras palavras, os habitantes das cidades passaram a querer modelos como Hilux, S10, Ranger e cia. Mas não pelas aptidões que esses veículos apresentam para o trabalho, e sim pelo status.
Ter uma picape média é ter poder, e também sobressair no trânsito. É algo como a força de atração de um SUV, mas com um toque extra de exclusividade (por serem modelos mais caros) e de personalidade (pois são mais rústicos).
O que a Fiat fez? Deu ao povo o que o povo queria: uma picape intermediária. A Toro tem porte um pouco inferior ao das médias, mas, ainda assim, consegue sobressair nas ruas.
Além disso, enquanto Hilux e cia são feitas com carroceria sobre chassi, a Toro usa a plataforma do Renegade (Fiat e Jeep, agora, pertencem ao mesmo grupo automotivo). O primeiro grupo de picapes é desconfortável, pula muito em alguns tipos de piso.
O segundo grupo, o da Toro, oferece o conforto que quem vive nas cidades quer. A capacidade de carga é inferior, mas e daí? O picapeiro da cidade não precisa levar carga na caçamba.
Além disso, por ser menor, e mais simples, a Toro é também mais barata. Para comparação, a S10 flexível de entrada custa R$ 107.990. A Hilux a diesel parte de R$ 135.600. Com esse tipo de propulsor, o modelo da Fiat começa em R$ 105.350.

Dá para dizer que a Toro se tornou um modelo sem concorrentes. Ela é a picape “média” urbana.
O mercado tem também a Renault Oroch, que “bebe” na mesma fonte – é feita sobre a base do Duster e tem porte semelhante ao da Fiat. Porém, é um modelo racional demais, sem um forte apelo visual e, principalmente, sem a tradição off-road da Jeep.
Porque, além de uma grande “sacada” de marketing, a Toro também é fruto da fusão entre Fiat e Chrysler (que inclui as marcas Jeep, Dodge e Ram). Sem o “know-how” da empresa, seria impossível, para os italianos, a produção de um modelo de qualidade nesse segmento.
A Fiat poderia aproveitar essa vantagem para investir em outros segmentos de maior valor agregado? Poderia, por exemplo, fazer um sedã médio Fiat com base de Chrysler?
Sim, poderia, e talvez esteja até trabalhando nesse plano. O sucesso é garantido? Aí, já é outra história. Mais que fazer carros bons, a Fiat, com toda a “aura” de marca popular, precisa conseguir vendê-los.
A Toro se tornou desejável por ser única. Por isso, conseguiu cativar um cliente que foge de marcas populares, tornando-se um objeto de desejo.
MOMENTO RUIM TAMBÉM EXPLICA A LIDERANÇA
É inegável que a Toro é um retumbante sucesso. Porém, o fato de ter sido o Fiat mais vendido em julho pode ter também uma outra explicação.
Em vendas, a Fiat enfrenta um de seus piores momentos no Brasil. Depois de anos de liderança, a marca despencou no ranking de vendas. Isso ocorreu entre meados do ano passado e o primeiro semestre de 2017.
O fato é que a Fiat ficou sem produtos de apelo – com exceção da Toro. O Palio deixou de ser interessante, diante de uma concorrência mais moderna. Hoje, está fora do “top 20” de vendas, já ameaçando deixar também a lista dos 30 mais emplacados.
A Strada vem perdendo mercado e, nos mês passado, ficou atrás de sua rival Saveiro, algo que jamais havia acontecido. O Uno, que, após a chegada do Mobi, ficou mais caro, não vende tanto quanto antigamente.
E o Mobi? Lançado em 2016, era a aposta de carro de alto volume da Fiat, mas teve um péssimo início. A aceitação do público não veio.
Nos últimos meses, o desempenho do carro melhorou. Porém, isso foi bastante impulsionado pelas vendas diretas (da Fiat diretamente para empresas, com descontos). Essa modalidade representou 60% dos Mobi emplacados em junho, por exemplo – naquele mês, o hatch obteve seu melhor desempenho.
A aposta da Fiat para retomar à briga com os líderes de vendas (Onix, HB20 e Ka) é o Argo. O modelo tem recebido ótimas críticas. Porém, diferentemente da Toro, é só mais um na multidão.
O Argo tem de lutar contra modelos com propostas semelhantes, algo que não ocorre com a Toro. Nos dois primeiros meses, suas vendas ficaram abaixo da expectativa da Fiat, de 6 mil unidades.
Porém, ainda é cedo para saber se essa meta será batida ou não. Os dois ou três primeiros meses nem sempre servem como base para o verdadeiro potencial de um carro no mercado.
Enquanto isso, a Toro vai confirmando o posto de modelo mais importante na atual gama da Fiat. Logo ela, que de popular não tem nada.
E, agora, aos números. Em julho, a Toro teve 5.028 unidades vendidas, ante as 4.315 do Mobi, 3.811 da Strada, 3.355 do Uno e 3.235 do Argo.
VEJA TAMBÉM: OS CARROS MAIS VENDIDOS EM JULHO DE 2017
Hyundai Creta
3.169 unidades vendidas
Jeep Renegade
3.176 unidades vendidas
Fiat Argo
3.235 unidades vendidas
Fiat Uno
3.355 unidades vendidas
Honda HR-V
3.511 unidades vendidas
Fiat Strada
3.526 unidades vendidas
Toyota Etios
3.542 unidades vendidas
Volkswagen Voyage
3.661 unidades vendidas
Volkswagen Fox
3771 unidades vendidas
Volkswagen Saveiro
3.811 unidades vendidas
Jeep Compass
4.151 unidades vendidas
Fiat Mobi
4.315 unidades vendidas
Fiat Toro
5.028 unidades vendidas
Volkswagen Gol
6.236 unidades vendidas
Toyota Corolla
6.250 unidades vendidas
Chevrolet Prisma
6.300 unidades vendidas
Renault Sandero
6.663 unidades vendidas
Ford Ka
7.248 unidades vendidas
Hyundai HB20
9.312 unidades vendidas
Chevrolet Onix
15.234 unidades vendidas
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